A força das mulheres mostrada pela superação da dependência química

“Eu aprendi a obedecer, a respeitar, aprendi a amar o meu próximo. Eu não sabia o que era amar”, diz Júlia*, com um brilho no olhar, orgulhosa de si

A força das mulheres mostrada pela superação da dependência química (Foto: Reprodução/Internet)

“Eu não sabia o que era amar”. Assim começa a história de Júlia*, antes de chegar à sede de tratamento feminino da Casa do Oleiro, primeira unidade destinada ao tratamento de mulheres no Piauí, vinculada à Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Políticas Integradas (Semcaspi), que visa recuperar e reabilitar usuárias que sofrem com as consequências do uso abusivo e dependência do álcool, crack e outras drogas. Mãe de cinco filhos, Júlia* buscou a instituição para superar os vícios que possuía e, hoje, faltando um mês para concluir seu tratamento, se considera uma nova pessoa.

Essa história é só uma entre as das 14 mulheres que estão dentro da instituição em tratamento, em um período de seis meses. O tratamento é dividido em três fases, com dois meses cada. Na fase número um está a ‘Esperança’; já na segunda, denomina-se ‘Nova Vida’ e na terceira, ‘Andar na Luz’.

Com a ‘Esperança’ elas aprendem uma nova rotina, onde voltam a se alimentar, dormir, viver adequadamente. Na ‘Nova Vida’, com o uso apenas da fé, elas se adequam a conviver em comunidade, purificam a mente, que outrora, era dominada pelo vício. Ao ‘Andar na Luz’, exercem a fé e, com base nisso, entendem que precisam lutar por si.

A decisão é um dos pontos principais para que consiga vencer, por isso, durante os passos para que se entre no tratamento, é perguntado se a pessoa a busca por livre vontade ou está obrigada. Querendo o tratamento e após uma triagem com psicólogos e médicos e a realização de exames, o processo de recuperação do usuário é iniciado. E é sobre a fase inicial que Júlia* comenta, orgulhosa ao ver onde já chegou. “Eu era muito irada, meu primeiro mês foi complicado. Mas, do segundo em diante, eu conheci a Deus. O mais difícil é obedecer, mas hoje eu sou outra pessoa”, relata.

Se, ao chegar, Júlia* disse que não conhecia o amor, após cinco meses de tratamento, ela comemora que a situação já não é assim. “Eu aprendi a obedecer, a respeitar, aprendi a amar o meu próximo. Eu não sabia o que era amar”, diz com um brilho no olhar, orgulhosa de si. Júlia* acrescenta que sairá uma nova mãe, uma nova filha. Assim como Júlia, foi com a garra de lutar pela própria vida que Cynthia Pinheiro buscou a Casa do Oleiro, após 12 anos do uso de drogas. “Eu cansei de sair e não voltar para casa, não ver a minha filha, não ver a minha família. Depois do vício em crack, cocaína e álcool, eu quis me livrar e tomei a decisão que precisava de um tratamento”, relembra.

Cynthia Pinheiro, após a superação dos 12 anos do vício, agora é monitora na instituição que a acolheu. “Deus começou a tocar em mim, comecei a ser liberta dos meus vícios e desvios de caráter. Com cinco meses, senti um chamado de Deus para continuar na casa e quando concluí meu tratamento, fui chamada para continuar. Estou com um ano e seis meses na obra”, comenta.

A rotina na Casa do Oleiro é segmentada em um devocional pela manhã, seguido do café da manhã, intervalo, atividades de limpeza e organização do sítio e culto. Após, vem o almoço e descanso. No período da tarde, são ofertadas aulas que tratam sobre os vícios e fé, depois um horário livre para atividades, como vôlei, dominó e o culto do perdão. Em sequência é servido o jantar. Após um intervalo, acontecem as aulas e, às 22 horas, todas se recolhem para dormir.

Para todas elas, foi essencial que alguém acreditasse e desse a mão, para que pudessem conseguir superar o vício. As mulheres acolhidas na Casa do Oleiro, que antes temiam, hoje enfrentam, conseguem, alcançam, inspiram e também, aconselham. “O vicio, o álcool, a droga parecem, em um primeiro momento, um refúgio, mas depois, escraviza, mata, faz a gente fazer coisas que sóbria não faria. Traz muito arrependimento. Eu aconselho a não experimentar, às vezes a pessoa cai só pela curiosidade. Não caia nem pela curiosidade, nem por brincadeira. No começo a gente acha que pode dominar, mas depois a gente acaba sendo dominada pelo vício”, aconselha Cynthia Pinheiro.

Hoje, liberta do vício, Cynthia está prestes a casar e comemora tudo o que já conseguiu. Mas, principalmente, se mostra empenhada em contribuir com a superação de outras mulheres. “A forma que Deus me ajudou, a forma que eu fui ajudada, vou repassar para essas mulheres”, comenta, determinada a melhorar a vida dos outras pessoas, assim como um dia foi ajudada.